Tempos de incerteza na China? Entendendo o Caso Evergrande


(Imagem: Socialismo Criativo)

Provavelmente é a segunda vez que escutamos o nome da empresa Evergrande, gigante imobiliária da China, no Brasil. A primeira está relacionada não às atividades centrais da segunda maior incorporadora imobiliária chinesa, mas sim por ela ser dona do maior e mais bem-sucedido clube de futebol chinês chamado Guangzhou Evergrande, por onde passaram vários jogadores (Fernandinho, Paulinho, Talisca, Ricardo Goulart, Elkeson, Alan, Renê Júnior entre outros) e o técnico Luís Felipe Scolari, o Felipão.


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Agora a Evergrande ganha as principais páginas das mídias internacionais por apresentar a possibilidade de ‘default’ inadimplência financeira. Para termos uma dimensão da Evergrande na China, ela está presente em todos os estados chineses, em mais de 310 cidades e possui mais de 2.800 projetos. A empresa emprega direta e indiretamente mais de 3,8 milhões de pessoas e possui mais de 12 milhões de pessoas vivendo sob seus projetos. Além disso, tem sete unidades que se dedicam a uma ampla gama de indústrias, incluindo veículos elétricos, serviços de saúde, produtos de consumo, unidades de produção de vídeo e televisão e até mesmo um parque temático.


Em 31 de março de 2021 a Evergrande, que está listada na Bolsa de Hong Kong (3333.HK), anunciou seus resultados anuais de 2020. De acordo com dados, a Evergrande alcançou vendas de R$ 589 bilhões em 2020 e um faturamento de R$ 541 bilhões, com lucro líquido em torno de R$ 26 bilhões.

Com esse desempenho qual é o problema então?

A empresa da China tem uma dívida total de mais de R$ 1,6 trilhão, pois no mercado imobiliário chinês as incorporadoras precisam para sua de expansão de elevados crescimento, volume de negócios e dívida. Ou seja, o rápido crescimento da escala empresarial, a alta velocidade de aquisição de terrenos, construção, vendas, e cobrança de pagamentos, o que leva a uma operação de alta alavancagem – alta dívida.


A alta alavancagem não é o fator central que determina a vida ou a morte das empresas imobiliárias na China. Os principais ativos das empresas imobiliárias são a sua capacidade de monetização e o perfil dos projetos da empresa. Apesar da dívida líquida da Evergrande ter diminuído por pressão do governo chinês desde 2017, com a deterioração global e a rápida queda na liquidez no mercado imobiliário chinês a empresa chegou a tal situação. Portanto, a Evergrande tem um fluxo de caixa que não fecha, além de obviamente ter entrado em áreas (diversificação de ativos) que não possui competência – elevando ainda mais a sua dívida.


Em um relatório de agosto, a Standard & Poor’s (S&P) estimou que nos próximos 12 meses, a Evergrande terá mais de R$ 195 bilhões (US$ 37,16 bilhões) de contas e dívidas comerciais de empreiteiros para liquidar. O preço de suas ações caiu quase 80% este ano e a negociação de seus títulos foi interrompida repetidamente pelas bolsas de valores chinesas nas últimas semanas.


Na segunda-feira (20), os mercados de Nova York, Londres e Hong Kong acordaram nervosos por dois motivos: 1) A Evergrande falhou no pagamento da rolagem de sua dívida (juros de US$ 80 milhões) e está prestes a falhar no pagamento de títulos na quinta-feira, o que coloca não só a possibilidade de inadimplência, mas o pedido de falência real. A maioria da dívida da Evergrande é detida por credores chineses e poucos credores internacionais, mas o medo do ‘mercado’ é de que haja um efeito cascata em bancos, fornecedores, compradores e investidores. 2) O efeito da Evergrande no mercado chinês pode gerar consequências para os investidores globais que estão de olho na decisão sobre as taxas de juros pelo banco central dos EUA em uma reunião de dois dias que começou ontem. Não se espera que o banco central americano aumente sua taxa, mas qualquer indicação de que ele possa estar se aproximando disso faz com que os mercados fiquem nervosos e colapsem. E o efeito cascata estaria atuando na pratica.

A Evergrande é grande demais para falhar

A Evergrande é uma incorporadora imobiliária da China tão importante que seria um sinal desastroso para a economia chinesa se o governo central ou mesmo o banco central não buscasse uma reestruturação gerenciada na qual outros incorporadores privados ou estatais assumam os projetos não concluídos. Isso vai garantir que os consumidores chineses não pagarão a conta.

Fazendo do limão a uma limonada

Na minha visão, o governo Chinês nos próximos dias ou semanas através de seus agentes econômicos (governos regionais, bancos e empresas estatais) deve encontrar uma saída para a situação da Evergrande. Na prática, isso significa dizer que o governo vai mediar uma solução para não deixar os projetos da Evergrande, os empregos, fornecedores e os consumidores serem prejudicados.


O governo chinês não dará guarida para a indisciplina e má-gestão nas empresas privadas do país, jamais deixará transparecer para outras empresas chinesas que elas podem serem alavancadas e que estará lá para salvá-las em uma situação semelhante à da Evergrande.

Nesse sentido, o governo chinês deve mostrar que é um governo disciplinador do mercado e não um governo que é disciplinado pelo mercado. O governo chinês já deu várias amostras de que não está com medo de gerar uma crise no capitalismo internacional, mas sim resolver uma situação econômica interna indigesta criada pela tensão do Estado chinês e a introdução da economia de mercado.


Acompanharemos os próximos capítulos!


Alessandro Golombiewski Teixeira: Professor de Economia e Políticas Públicas da Universidade de Tsinghua, em Pequim, e colunista de CGTN, China Today, Contemporary China e China Finance. Trabalhou em diferentes funções nos governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidenta Dilma Rousseff.

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