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Por que Nelson Werneck Sodré e por que agora?


(Imagem: Socialismo Criativo)

A Revolução Brasileira é a coluna quinzenal e exclusiva para o site Socialismo Criativo assinada por Jones Manoel. Historiador, professor, educador popular, youtuber e podcaster, o colunista aborda os caminhos revolucionários a partir do ponto de vista da juventude marxista brasileira.

Boa leitura!

Por que Nelson Werneck Sodré e por que agora?

No começo de novembro, a Editora Martelo começa o lançamento da coleção de obras de Nelson Werneck Sodré. A editora pretende republicar no mínimo 20 livros desse grande pensador nacional. É uma iniciativa ousada, grandiosa e que pode ajudar a finalmente fazer justiça a obra de Sodré. Nelson, até o golpe de 1964, era considerado um dos principais pensadores do Brasil e o maior nome nacional do marxismo nos anos de 1950. Sua produção teve profunda influência nas ciências sociais, cultura e política brasileira.


A despeito de toda essa importância na história do país, o trabalho intelectual de Sodré foi condenado, colocado no exílio, numa espécie de index de autores que não devem ser lidos. O nome do autor foi cercado de caricaturas e estereótipos do tipo “stalinista”, “mecanicista”, “sem domínio da dialética”, “autor do feudalismo”, “autor da estratégia democrático-nacional“ etc. A minha geração não teve direito de conhecer e ter acesso a um balanço sério dos escritos de Sodré e sua importância no pensamento social brasileiro.


Na minha graduação em História na UFPE, ouvi falar de Sodré duas vezes. Nas duas, ele foi apresentado como o “autor do feudalismo”. No mestrado em Serviço Social, também na UFPE, não lemos Sodré e ele foi apresentado como “autor stalinista do PCB”. Só parei de demonizar a obra do general do povo e da cultura quando, por iniciativa própria, fui estudar suas obras. Os dois livros que propiciaram o primeiro contato foram História da burguesia brasileira e Introdução à revolução brasileira. Só com a leitura desses dois livros, pude perceber o quanto era injusto as caricaturas que pairam sobre a produção de Sodré.


Poderia elencar vários aspectos superados da obra do autor ou as discordâncias que tenho com ele (discordo, por exemplo, de muitos aspectos da análise sobre a questão agrária e a estratégia política que defendia para Revolução Brasileira). Discordâncias e necessidade de revisar teses, hipóteses e marco teórico é algo normal da pesquisa científica. O que não é normal e aceitável é o estigma, o banimento, a mentira. Por exemplo, é insustentável etiquetar Nelson Werneck como alguém que não tinha domínio da “dialética” e do “método marxista”.


A partir disso, podemos responder a primeira pergunta que vai no título dessa coluna: por que Sodré? Bem, porque ele deve ser o autor mais injustiçado da cultura brasileira. Dificilmente acharemos outro exemplo de um pensador que passou décadas tendo uma contribuição e influência gigantesca para o pensamento crítico nacional e em seguida sofreu um ostracismo e uma campanha de difamação tão assustadora. No auge dessa campanha de banimento, era moda contrapor Caio Prado Jr. e Sodré para exaltar o primeiro e demonizar o segundo. Sobre o assunto, a posição de José Paulo Netto é correta,

É conhecida a divergência analítica entre Caio Prado Jr e Nelson, especialmente no que toca à existência e à natureza de relações não capitalistas no agro brasileiro; os dois estudiosos, igualmente, discrepam na análise dos condicionantes imediatos da ditadura instaurada em 1964. É interessante observar – sem, com isto, questionar a extraordinária contribuição de Caio – que o senso comum acadêmico se compraz em cotejar superficialmente a obra de Nelson com a do historiador paulista, obscurecendo a diferente amplitude e deixando acriticamente na sombra aspectos problemáticos do trabalho de Caio (como, por exemplo, a precariedade das suas concepções de economia política e os seus juízos equívocos sobre o negro). Nesse cotejo manipulado, jogam um papel ponderável os vieses políticos dos críticos (NETTO, 2012, p. 191).

Não pretendo, nesse curto escrito, detalhar o processo de estigmatização da obra de Nelson. Quem tiver curiosidade de entender a questão, pode ler o livro Marxismo impertinente (Cortez, 2012) do José Paulo Netto – citado acima – e conferir a questão com maiores explicações. Quero responder agora a segunda questão do título dessa coluna. Por que agora? Elenco três motivos principais para a necessidade de voltar ao estudo de Sodré.


Primeiro, Sodré é um interprete do Brasil, sua obra é uma teoria do Brasil e da Revolução Brasileira. Nos últimos anos, uma das principais vítimas da onda pós-moderna, neoliberal e irracionalista foi a pretensão de pensar o país como um todo, compreender nossa formação social nos seus elementos constitutivos e estruturantes. Boa parte da intelectualidade transformou-se em especialista em algum micro tema, analista de conjuntura e/ou formulador de política pública. Precisamos recuperar a noção de totalidade como categoria teórico-ontológica fundamental de toda pesquisa científica e a partir disso, pensar o Brasil como uma totalidade com sua historicidade, contradições, estruturas e desenvolvimento. A obra de Sodré é um modelo para recuperarmos o Brasil enquanto projeto de pesquisa.


Contudo, quando falo “modelo”, não quero defender, por óbvio, nenhuma cópia ou repetição acrítica. Não seria sério, por exemplo, alguém abrir o livro de Lênin sobre imperialismo e depois disso achar que entende a política externa atual dos Estados Unidos. O que precisamos é estudar como Sodré pensou o Brasil – menos suas respostas e mais as perguntas que formulou. A atualidade de vários aspectos do programa de pesquisa de Nelson é uma expressão do caráter clássico de sua obra. Uma obra torna-se clássica quando ela não responde apenas a questões conjunturais e tópicas, mas a grandes dilemas históricos, problemas que embora mudem na sua forma, dinâmica e conteúdo, continuam presentes desafiando várias gerações.


A dependência, questão agrária, soberania nacional, questão militar, colonialismo e cultura, imperialismo e desenvolvimento capitalista periférico, capitalismo e neofascismo, neoliberalismo e reconfiguração da dependência e tantos outros temas abordados por Sodré continuam questões para nossa época. Precisamos de sua obra não para encontrar respostas prontas, mas para formular melhor as perguntas, os problemas de pesquisa, pensar a ação política com lastro histórico, indo além da dinâmica política do momento.

Por fim, Nelson é autor de temas pouco debatidos pelas esquerdas nas últimas décadas. Retomar suas obras pode e deve ser também o reencontro com vários temas negligenciados. Destaco, em especial, dois: questão militar e questão nacional. A maioria das esquerdas, em especial o PT, simplesmente ignorou a questão militar e não formulou nenhuma linha estratégia de atuação. Passamos anos vivendo com o mito dos “militares profissionais” que não se envolvem em política e hoje convivemos com o governo mais militarizado da história nacional. Voltar a ler a coletânea de escritos de Sodré debatendo a temática, em especial o seu História militar do Brasil, pode ser o disparador para a formulação do programa militar da Revolução Brasileira.


Sobre a questão nacional, não é preciso escrever muito. Acontece à olhos visto e de forma escandalosa o maior ataque à soberania nacional das últimas décadas. Em todos os campos – cultura, meio ambiente, educação, economia, política, ciência e tecnologia etc. -, o país é cada vez mais dependente, sub-soberano e dominado pelo imperialismo. Um debate crítico, popular e revolucionário sobre a questão nacional na Revolução Brasileira é urgente. E Sodré é um apoio fundamental nesse tema. Até seus erros, como a crença de um papel importante da “burguesia nacional” num projeto soberano, são fontes importantes de ensinamento.


Em suma, é preciso, como diria Lênin, “estudar, estudar e estudar”. Na luta pela construção de um pensamento nacional crítico e revolucionário, podemos e devemos construir um novo balanço para obra de Nelson Werneck Sodré. Agora, com a coleção lançada pela Editora Martelo, teremos com facilidade os livros em mãos para fazer esse debate. Mãos à obra e, no melhor espírito da produção de Nelson Werneck, que esse esforço teórico seja parte do processo de luta pela Revolução Brasileira.


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