População defende aumento de impostos para os mais ricos


Maior parte dos entrevistados acredita que taxação de grandes fortunas deve financiar políticas públicas - (Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Por Ana Paula Siqueira, Socialismo Criativo


A maior parte da população brasileira – 84% – concorda que os mais ricos devem pagar mais impostos para financiar políticas públicas sociais, como educação, moradia e saúde, para os que mais precisam. E 56% defendem o aumento de impostos para financiar essas políticas. Os dados são terceira edição da pesquisa “Nós e as Desigualdades”, realizada pela Oxfam Brasil em parceria com o Instituto Datafolha.


A pesquisa traz uma foto da opinião pública a respeito das desigualdades em 2020, um ano marcado pela crise sanitária provocada pela pandemia de Covid-19.


A pesquisa foi realizada com 2.079 pessoas, em nível nacional, em 130 municípios de pequeno, médio e grande portes – incluindo metrópoles e cidades do interior. O período de aplicação das entrevistas foi de 7 a 15 de dezembro. A margem de erro é de 2% para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%.

Quem tem mais, paga mais

Ao se comparar os dados levantados com as pesquisas anteriores realizadas pela Oxfam, foi verificado apoio da população ao aumento de tributação para o financiamento de políticas públicas. Em 2019, o apoio ao aumento de impostos para todos os brasileiros era de 31% (56% agora) e 77% para os mais ricos (84% agora).


“Isso revela que a população brasileira reconhece a importância do Estado e do financiamento de políticas públicas sociais por meio dos impostos que pagamos, principalmente no contexto da crise econômica e sanitária que vivemos”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil.


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Para ela, a defesa do aumento dos impostos para os mais ricos é significativa, pois demonstra que a população quer medidas que reduzam as desigualdades.


Essa percepção está alinhada com o debate público que vemos atualmente no Brasil e globalmente. Não estamos isolados em relação ao mundo nessa questão, outros países têm refletido também sobre esse anseio para que os mais ricos contribuam mais para a solução dos problemas econômicos, sociais e sanitários”, observa.

Redução das desigualdades é obrigação do Estado

A pesquisa revela ainda que 86% das pessoas entrevistadas afirmam que o governo tem a obrigação de reduzir a diferença entre os mais ricos e os mais pobres. Parar 85%, o governo também deve reduzir as desigualdades regionais no país.


“A percepção da população está alinhada com um dos objetivos fundamentais da República, previsto no artigo 3º da Constituição Federal, que estabelece como diretriz a redução de desigualdades sociais e regionais”, diz Jefferson Nascimento, coordenador da área de Justiça Social e Econômica da Oxfam Brasil e autor do relatório com análise da pesquisa.

Descompasso entre coletivo e individual

A pesquisa revela ainda que 64% dos entrevistados acredita que vai melhorar de vida nos próximos cinco anos. Porém, o mesmo percentual não acredita que o país também vá melhorar nesse período.


Para Jefferson Nascimento, isso indicaria um elemento de desconfiança em relação aos rumos que o Brasil vem tomando nos últimos anos, especialmente com a gestão do governo federal e demais autoridades públicas com a pandemia.


“Essa tendência já estava nas pesquisas anteriores que fizemos (em 2017 e 2019). As pessoas parecem depositar suas esperanças sobre melhora de vida apenas no plano individual, conjugando com um olhar desalentado para sociedade como um todo”, diz.

Gênero e raça

A pesquisa revela a percepção das pessoas sobre a desigualdade salarial na perspectiva de raça e gênero. Para 76%, a cor da pele influencia na contratação por empresas. 58% concordam que os negros ganham menos por serem negros. E 67% afirmam que o fato de ser mulher impacta negativamente na renda obtida.


Além disso, 84% dos entrevistados acreditam que a cor da pele influencia a decisão de uma abordagem policial e 78% concordam que a Justiça é mais dura com pessoas negras.

Saúde é prioridade

Para 62% dos entrevistados, “ter acesso à saúde” é uma das três principais prioridades para uma vida melhor, ao lado de “estudar” e “fé religiosa”. 73% defendem universalidade para atendimento em postos de saúde e hospitais.


Com relação a pandemia, 52% concordam que os governos estaduais fizeram tudo o que era necessário para proteger a vida das pessoas. O que inclui diagnóstico e tratamento de saúde durante a crise sanitária. Para 53%, o governo federal não cumpriu esse papel.

Falácia da meritocracia

A maior parte dos entrevistados também não acredita na meritocracia. 60% duvidam que o trabalho sirva como equalizador das chances dos mais pobres. Além disso, 52% não creem que a educação das crianças pobres equaliza suas chances de uma vida bem-sucedida.


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Já 62% apoiam a manutenção do auxílio emergencial para as pessoas que têm direito hoje mesmo após o fim da pandemia.

Autorreforma do PSB

A Autorreforma do PSB defende que as reformas fiscal e tributária combaterão fortemente a regressividade da carga tributária brasileira. Isso significa que os socialistas são contra o fato de que, proporcionalmente à renda, os mais pobres pagam muito mais impostos do que os mais ricos.


“O PSB defende a adoção de uma Reforma Tributária, onde a progressividade – menos impostos para os mais pobres e para as atividades produtivas – e o aumento da tributação para os mais ricos, em particular sobre a renda, lucros e dividendos, o patrimônio e as grandes fortunas e heranças, seja a diretriz central da nova política tributária a ser adotada.” Autorreforma do PSB
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