Pesquisa comprada: Governo pagou estudo que beneficia Bolsonaro

Reportagem de Lúcio Castro, da Agência Sportlight, revela que o Instituto Paraná Pesquisas fechou um contrato de R$ 1,6 milhão com o governo federal dois meses antes da divulgação do último estudo, nesta quarta-feira (1º), que mostra um empate técnico de Jair Bolsonaro (PL) com Lula (PT), que lidera todos os outros levantamentos, com chances de vitória no primeiro turno.


Comandado por Murilo Hidalgo Lopes de Oliveira, o Paraná Pesquisas firmou contrato com o Ministério das Comunicações, de Fábio Faria (PSD), no dia 30 de março no valor total de R$ 1.623.600,00.


O objetivo do contrato é “contratação de empresa especializada na prestação de serviços de pesquisa de opinião pública”.


O contrato é alvo de uma representação do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) que foi analisada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) no dia 4 de maio.

A ação questiona o “desvio de finalidade”, além da questão do contrato ser feito com uma empresa que divulga pesquisas eleitorais.


Para o TCU, existe “o risco de que os resultados das pesquisas sejam utilizados de forma indevida, para subsidiar a campanha eleitoral do presidente da República, que é, notoriamente, candidato à reeleição”.


Além do Paraná Pesquisas, o governo contratou o Instituto de Pesquisa de Reputação e Imagem (IPRI), que tem entre seus sócios a FSB, empresa de comunicação que detém diversos contratos com o governo, por R$ 11,9 milhões para realização de pesquisas quantitativas. O contrato também é alvo do TCU.


Apesar de considerar notório o “risco de desvio de finalidade”, reconhecido pelo relator Walton Alencar Rodrigues, o voto teve uma sutil manobra para não anular o pregão e os contratos: “trata-se, no entanto, da identificação de risco e não da verificação do desvio de finalidade”.

Pesquisa

Na contramão de outros institutos – como o Datafolha, que aponta chance de vitória de Lula no primeiro turno -, o estudo do Paraná Pesquisas divulgado nesta segunda mostra Lula com 41,4% e Bolsonaro com 35,3%, um empate técnico no limite da margem de erro, de 2,2 pontos para mais ou para menos.


Na espontânea, quando não são apresentados os nomes dos candidatos, a diferença é ainda menor: Lula com 28,3% e Bolsonaro com 27,3%.


No dia 28 de maio, um outro levantamento do Paraná Pesquisas aponta que Bolsonaro já estaria à frente de Lula em São Paulo, maior colégio eleitoral do país.

Propina em ação no MP

Sócio do Paraná Pesquisas, Hidalgo mantém um Instagram com diversas fotos ao lado de bolsonaristas, como Luciano Hang, ministros, como Paulo Guedes, e até com Jair Bolsonaro.

“Boa conversa hoje cedo, com o Presidente, com a presença do estagiário”, publicou no dia 7 de setembro de 2021.


Em 2020, Hidalgo foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo por lavagem de dinheiro e associação criminosa.


Ele foi acusado de firmar um contrato “ideologicamente falso” com o grupo Hypermarcas para forjar uma pesquisa para favorecer interesses da empresa no Senado entre 2013 e 2015.

Segundo o MP, Paulo Roberto Bauer, então senador pelo PSDB em Santa Catarina, teria recebido propina no valor de R$ 11,8 milhões para fazer lobby para uma PEC, arquivada em 2018, que alterava o regime tributário sobre medicamentos de uso humano.

Parte do valor pago em “estudos” feito pela Paraná Pesquisas teria sido destinado às propinas pagas ao senador.


Leia também: Datafolha: 72% dos brasileiros discordam de Bolsonaro sobre uso de armas


Datafolha foi o que mais acertou e Paraná Pesquisas o que mais errou em 2018


Levantamento feito pelo jornal O Povo, do Ceará, publicado em 29 de outubro de 2018, dia do segundo turno das eleições presidenciais, apontava que o instituto que mais acertou o resultado foi o Datafolha. O mesmo levantamento diz que o que mais errou foi o Paraná Pesquisas.


O Datafolha, diz o site, foi o que melhor previu o cenário eleitoral, “cravando” vitória de Jair Bolsonaro, então no PSL, com 55% dos votos válidos em levantamento divulgado no sábado antes da disputa. Já o extinto Ibope divulgou pesquisa de boca de urna no sábado, na qual o presidente eleito apareceu com 54% dos votos.


Bolsonaro venceu as eleições com 55,13% dos votos, enquanto Fernando Haddad ficou com 44,87%.


O Ibope, que atribuiu a Bolsonaro percentual na boca de urna maior que o da votação, vinha sendo alvo de críticas de membros da família do candidato, como o filho Flávio Bolsonaro nas redes sociais.


O Povo lembra ainda que o instituto que mais passou longe de acertar o resultado foi o Paraná Pesquisas contratado pela Revista Crusoé e pela consultoria Empiricus. A pesquisa apontava vitória folgada de Bolsonaro por 60,6% contra 39,4% contra o candidato do PT. Diferença, portanto, de quase seis pontos percentuais do resultado.


Por Plinio Teodoro e Julinho Bittencourt

1 visualização0 comentário