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Negros e brancos na luta contra o racismo


Em 1987, fomos à África do Sul. A deputada Bené Silva, os deputados João Hermann Neto, Carlos Alberto – CAÓ, Edmilson Valentim, o atual senador Paulo Paim e eu. Nossa missão era prestar solidariedade ao líder Nelson Mandela e convidá-lo para vir ao Brasil. E à Bahia, naturalmente.

Fomos recebidos pelo setor internacional do partido do Congresso Nacional Africano. Uma espécie do nosso MDB original de caráter frentista e que englobava as várias organizações que lutavam contra o apartheid inclusive os comunistas e socialistas.

Tivemos uma reunião razoavelmente longa com o próprio Mandela e assinamos termos de cooperação entre o PMDB que representávamos e as organizações representadas por Nelson Mandela. Conhecemos a impressionante figura da líder radical anti-apartheid Minie Mandela, que era também esposa do grande líder.

Algumas coisas me chamaram bastante atenção naquela missão internacional. A primeira foi que a composição do Partido do Congresso Nacional Africano, pelo menos na sua direção nacional, com que tivemos maior contato, formada por negros e brancos.

Negros e brancos mais ou menos radicais, mais ou menos moderados, que se distinguiam mais por suas posições ideológicas que pela cor da pele. Negros e brancos que travavam uma luta ferrenha contra o racismo brutal, violento e odioso do apartheid imposto pelas elites brancas sul-africanas.

Notei também que já existia na África do Sul uma classe média negra, apesar da grande maioria da população negra viver nos guetos como o Soweto, em Johanesburgo. Vim a saber depois da existência de uma burguesia comercial negra que teria ajudado a financiar a resistência anti-apartheid.

Vi também, até com certo espanto, muitos casais negros jantando nos restaurantes finos dos hotéis da capital sul-africana. Isso ainda em pleno regime do apartheid, caracterizado pelo ódio racial.

Foi grande o sucesso de nossa missão diplomática partidária. Meses depois Nelson Mandela realizava uma de suas primeiras viagens internacionais. Exatamente para o Brasil. Sua estada na Bahia teve atos públicos na praça Castro Alves e visita à sede do Olodum. De novo com a mesma característica pluri-racial na comitiva de Mandela: negros, brancos e orientais sul-africanos.

Mas a presença de casais negros nos restaurantes finos de Johanesburgo não saía de minha mente, pois era exatamente o contrário de minha cidade: Salvador.

Anos depois resolvi fazer uma pesquisa e escolhi 15 restaurantes baianos que percorremos em uma só noite. Nos 15 restaurantes chiques de Salvador – inclusive, três em hotéis – registramos apenas 2 casais negros jantando. Sei que isso não tem valor científico e pode parecer uma visão elitista do fenômeno do racismo. Um detalhe na imensidão da discriminação racial em todas as esferas da sociedade. Claro que não havia casais brancos pobres nesses restaurantes.

Mas em uma cidade em que mais de 80% de sua população é negra, esse apartheid gastronômico me deu nojo. Na minha cidade, o racismo era pior que na África do Sul. Um apartheid que se observava nos clubes sociais, nos colégios, nas praias e até em alguns blocos de carnaval.

Não gosto de falar muito nisso devido a angústia e a raiva que me provoca. Durante algum tempo frequentei apenas os botequins, onde se come muito bem em Salvador. Anos depois esse cenário mudou um pouco, muito pouco.

As relações de classe e raça e a brutalidade do recorte racial na luta de classes, manifestada em todos os setores da vida, é a evidência que o combate ao racismo não é uma luta apenas dos negros, mas de todos aqueles lutam por uma verdadeira democracia, por uma verdadeira liberdade e por uma maior igualdade entre as pessoas.


Domingos Leonelli Membro da Executiva Nacional do PSB e Coordenador do site Socialismo Criativo
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