“Nativos digitais” não sabem diferença entre fato e opinião, diz OCDE


Por Ana Paula Siqueira, Socialismo Criativo


Os “nativos digitais”, adolescentes que nasceram no mundo permeado pela internet, não conseguem distinguir entre fato e opinião nos textos que leem. Essas e outras conclusões foram apresentadas pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) no relatório “Leitores do Século 21 – Desenvolvendo Habilidades de Alfabetização em um Mundo Digital”.


Os dados apurados sugerem que os jovens são, em grande parte, incapazes de compreender nuances ou ambiguidades em textos online, localizar materiais confiáveis em buscas de internet ou em conteúdo de e-mails e redes sociais, avaliar a credibilidade de fontes.


A familiaridade dos adolescentes com a tecnologia não os habilita automaticamente para compreender, distinguir e usar de modo eficiente o conhecimento disponível na internet. O estudo foi apresentado em seminário virtual da OCDE no último dia 26. As informações são da BBC.

Dados preocupantes

No Brasil, apenas um terço (33%) dos estudantes de 15 anos foi capaz de diferenciar fatos e opiniões em uma das perguntas do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). Na média dos países da OCDE, o índice é 47%. O Pisa é um exame internacional aplicado pela OCDE em estudantes de 79 países ou territórios, em 2018. Mesmo em países mais desenvolvidos a situação não é satisfatória.


Segundo o estudo, apenas metade dos estudantes em países da OCDE disseram ser ensinados na escola para reconhecer se a informação que estão lendo é enviesada, e 40% dos alunos nesses países foram incapazes de reconhecer os perigos de se clicar em links de e-mails de phishing, por exemplo.

Habilidades em baixa, diz OCDE

O Brasil também vai mal quando se leva em conspiração as habilidades de navegação. Apenas 15% foram considerados altamente eficientes, enquanto a média nos demais países avaliados foi de 24%.


“Ter nascido na era digital e ser um nativo digital não significa que você vai ter habilidades digitais para usar a tecnologia de modo eficaz”, afirmou no seminário Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE.


As consequências disso são profundas para a inserção no mundo do trabalho e para o exercício da cidadania, uma vez que pessoas que não sejam capazes de compreender textos plenamente estarão, em teoria, menos aptas para ocupar empregos de alta complexidade – e, ao mesmo tempo, serão presas mais fáceis para o ambiente de desinformação que floresce na internet e nas redes sociais.

Tecnologia não educa sozinha

O estudo mostra que o aprendizado dos jovens não é automático, mesmo com maior acesso às tecnologias. A educação escolar formal se mantém essencial. Segundo o diretor de educação da OCDE, os índices de alfabetização digital dos jovens evoluíram pouco nas avaliações do Pisa feitas entre 2000 e 2018, apesar das enormes mudanças sociais e digitais vividas pela comunidade global nesse intervalo de tempo.


Mais do que contato constante com a tecnologia, Schleicher defendeu que são a “aprendizagem tradicional” e o engajamento de professores que farão a diferença em dar aos alunos a capacidade de entender diferentes perspectivas em um texto e serem capazes de identificar nuances e opiniões.

OCDE enfatiza importância do professor

Os dados mostram que, em sistemas educacionais que trabalham ativamente as habilidades digitais, os estudantes pareceram mais capazes de distinguir entre fatos e opiniões. Mas o diretor de educação da OCDE destacou que é um problema que ultrapassa os muros da escola e exaltou o trabalho de países que já têm uma cultura mais enraizada de leitura e alfabetização, como Dinamarca, Finlândia, Estônia e Japão.


Embora ele afirme que ainda não se sabe porque alguns países se saem melhor na alfabetização digital, o papel do educador é central. No século 20, esperava-se que um aluno obtivesse conhecimento de fontes pré-curadas, como enciclopédias.


Hoje, ele precisa aprender a distinguir o que é relevante entre milhares de resultados de uma busca no Google. Precisa ser capaz de construir conhecimento e validá-lo, opina a OCDE. “Os educadores precisarão ser grandes mentores, mobilizadores e guias” nesse processo, afirmou Schleicher.

O que não muda é o poder dos livros

Os estudantes que disseram ler livros com mais frequência em papel do que nos meios digitais tiveram melhores resultados em leitura em todos os países e territórios que participaram do Pisa 2018. Além disso, esses jovens também relataram ter mais prazer com a leitura.


A leitura de livros de ficção e de textos longos também está positivamente associada a um melhor desempenho em leitura na maioria dos países avaliados. Mesmo cada vez mais fragmentada e mais presente no ambiente virtual, o relatório da OCDE mostra que o papel dos livros e de textos aprofundados continua sendo primordial.


Falta estímulo


O problema é que quase a metade dos estudantes (49%) nos países da OCDE disseram, na pesquisa aplicada junto ao Pisa 2018, que só liam “se tivessem que ler”. E cerca de um terço dos estudantes pesquisados disseram que raramente ou nunca lia livros.

O incentivo a leituras mais profundas, que permitam treinar a observação de nuances no texto, é uma estratégia capaz de melhorar as habilidades de compreensão textual tão valiosas no século 21.


Segundo o estudo, os jovens que disseram ter pais que gostam de ler também apresentaram índices mais altos de prazer com a leitura. Para a OCDE, professores e pais podem contribuir. Aparentemente, contudo, também faltam respostas sobre como pais que não tiveram acesso aos livros e, por consequência, não têm como dar o bom exemplo aos filhos, podem fazer.

Eterno e crescente abismo cultural


Um ponto preocupante, disse o diretor de educação no seminário, é um aumento crescente no “abismo cultural” entre estudantes de classes sociais mais avantajadas e os mais pobres.

Enquanto entre os estudantes mais ricos o número de livros em casa se manteve estável entre 2000 e 2018, esse número caiu consideravelmente entre os estudantes mais pobres.

“Nos acostumamos a tolerar as desigualdades e a ver parte dos estudantes ficando para trás”, lamentou Schleicher.

OCDE reforça impactos da pandemia

O relatório da OCDE observa que a pandemia da Covid-19 fez parte significativa do processo educacional migrar para a internet. O que aumentou a urgência de lidar com a questão da alfabetização digital, especialmente, com a crescente proliferação da desinformação. A propagação de fake news como parte de uma rede organizada já é tratada como uma pandemia por especialistas – a infodemia.


“Para muitas crianças em idade escolar e até mesmo professores, a desinformação nos tempos pré-pandemia talvez parecesse algo remoto, uma preocupação política de pouca relevância no pátio da escola ou na sala de professores. Hoje, a infodemia e a incerteza sobre fatos científicos e de saúde básicos capturou o foco dos alunos de 15 anos – e seu anseio por soluções”, afirma o relatório da OCDE.


“Alfabetização no século 21 significa parar e olhar para os lados antes de seguir adiante online. Significa checar os fatos antes de basear suas opiniões nele. Significa fazer perguntas sobre as fontes de informação: quem escreveu isto? Quem fez este vídeo? É de uma fonte confiável? Ele faz sentido? Quais são os meus vieses? Tudo isso cabe ao currículo escolar e ao treinamento de professores. E tudo isso tem implicações que vão muito além de detectar notícias falsas e desinformação: assegurar o ato de tomada de decisões bem informadas e assegurar a base de democracias funcionais.” Andreas Schleicher

Autorreforma

Em sua Autorreforma, o PSB propõe a educação como um dos pilares para o desenvolvimento do país. Somente por meio do conhecimento será possível reduzir as desigualdades sociais gritantes no Brasil. O que passa por garantir ensino gratuito público e de qualidade para todos e todas. Além do ensino, é necessário garantir os meios para que os estudantes tenham acesso a todo o conhecimento e possibilidades que o mundo digital proporciona.


Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que 4,3 milhões de estudantes não tinham acesso à internet no final de 2019. Desse total, 4,1 milhões estudam em escolas públicas. O que demonstra mais uma vez o impacto direto das desigualdades sociais na vida das pessoas.


“O PSB defende a necessidade de estruturação de programas que resultem na superação do quadro atual, em que os resultados alcançados pela educação pública, nas últimas décadas, demonstram a incapacidade de o Estado brasileiro garantir o processo de aprendizagem e de permanência na escola, dos brasileiros mais pobres.” Autorreforma do PSB

Por isso, o partido propõe uma educação de qualidade, sem a qual os segmentos menos favorecidos da população serão excluídos do mercado de trabalho e dos processos produtivos da economia do conhecimento. E precisarão continuar – como o fazem na atualidade -, recorrendo a subempregos para sobreviver cotidianamente.


“Pior que a distância que separa o grupo que teve acesso à educação, daquele que não teve, principalmente da camada da população que ainda convive com o analfabetismo, será o profundo abismo que separará, no futuro, a parte da população que teve acesso às novas tecnologias, daquela a quem esse acesso foi inviabilizado”, destaca a Autorreforma.


Com informações da BBC

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