Na real, já estivemos em companhia pior, hein? E o adversário não era o capiroto…

Por Cynara Menezes, Socialista Morena


Para meu espanto, vejo gente de esquerda incomodada com a presença de Geraldo Alckmin na vice do Lula, como se este fosse o Mal encarnado – e não a gárgula que está encarapitada no Palácio do Planalto, com perdão às gárgulas. No lodaçal em que estamos afundados, empinam o nariz para declarar que não podemos sujar nossas vestes imaculadas com o apoio de setores da direita. Ora, isto nem chega a ser coerente: em eleições anteriores, já estivemos em companhia pior e o adversário não era o capiroto.


Pensemos em 2010. Naquele ano, para minimizar o ataque baixo do PSDB a Dilma de que ela era “abortista”, o PT precisou acenar aos setores mais conservadores das igrejas neopentecostais. A candidata conseguiu o apoio de Marco Feliciano e foi rezar no Santuário de Aparecida. Em 2014, na campanha da reeleição, Dilma ainda tinha a companhia de Eduardo Cunha, e nem vou mencionar Michel Temer. Em 2016, às vésperas do golpe, a presidenta da República compareceu à inauguração do Templo de Salomão em São Paulo, num beija-mão a Edir Macedo, dono da Igreja Universal. Toda essa gente está do outro lado agora, com Bolsonaro. E Alckmin é melhor que todos eles.


Sem contar que, além do ex-governador paulista, estão a nosso lado este ano Guilherme Boulos, Sônia Guajajara, os maiores artistas brasileiros (inclusive Caetano, que vai de Lula no primeiro turno), PSB, PSOL e Rede (que tiveram candidatos próprios na última eleição). A Luiza Erundina! Pode vir a Marina Silva também… E, se estivermos de braços abertos, muito mais gente. Não podemos gourmetizar apoios quando o povo tem fome, o povo tem pressa. Tampouco este apoio pode ser cobrado, ele tem que vir de coração, porque esta é a campanha do amor contra o ódio: para ser vencedora, é preciso contagiar corações e mentes.


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Temos a possibilidade em 2022 de unir em torno de Lula o amplo espectro da sociedade que é a favor dos direitos LGBTs, que são antirracistas, antifascistas, contra a ditadura militar, a favor da preservação do meio ambiente, dos quilombolas, dos povos indígenas, da tolerância religiosa, da ciência, das vacinas… Está todo mundo do lado de cá, e francamente não importa ser de esquerda ou de direita. Progressistas contra conservadores já é uma delimitação importante num momento em que, em todo o mundo, a agenda da extrema direita é idêntica porque se trata de uma estratégia de dominação.


A antiga polarização entre PT e PSDB, se tinha suas vantagens porque era uma disputa no campo democrático, por outro permitia que esse pessoal parasitasse os dois partidos. A disputa entre petistas e tucanos, que poderia ter sido, na melhor das perspectivas, uma disputa republicana entre a direita liberal e a esquerda. Infelizmente, descambou para o fratricídio, graças sobretudo, à influência nefasta do fundamentalismo religioso. A purga que representou a eleição de Bolsonaro foi boa porque temos, todos nós progressistas, a chance de isolar este setor.


E digo mais. O triunvirato que opera o bolsonarismo é a bala (incluídos aí parte dos militares), a Bíblia e o boi. Para derrotar a extrema direita é preciso causar a cizânia nestes setores também. Tem militar que não quer ditadura; tem evangélico que não quer Bolsonaro; e tem agropecuarista que não quer desmatar ou matar indígena. E nos três setores tem gente que acredita na ciência, que não é intolerante e que não está interessado na orientação sexual dos outros. O que eu proponho, em síntese, é uma saída à francesa: união contra a extrema direita. Depois a gente volta a se dar o luxo de debater divergências.

Este é um momento decisivo para o nosso país. Ou a gente acerta o rumo ou descamba de vez. A esquerda precisa aprender que há tempos em que é preciso escolher não só quem a gente quer que governe, mas a quem a gente prefere fazer oposição.


Por Cynara Menezes, em Socialista Morena

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