Entrevista: senadora Leila Barros fala sobre a CPI da Pandemia e cobra respostas do GDF


Senadora Leila Barros durante reunião da CPI da Pandemia no senado - (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)

Neste 13 de junho, a CPI da Pandemia no Senado completa o 60º dia desde o início de seus trabalhos. Entre os membros da comissão indicados pelos partidos políticos apenas homens figuram entre os titulares e suplentes, porém, após articulação da bancada feminina na casa, as senadoras também ganharam direito de participar dos trabalhos e fazer perguntas aos convocados.


Entre elas, a senadora Leila Barros (PSB-DF) se destaca pela atuação firme e, infelizmente, também por episódios de machismo que vivenciou durante as reuniões de trabalho. Em um deles, Leila precisou solicitar aos senadores que parassem de interromper a oncologista Nise Yamaguchi, a mulher prestava depoimento mas não completava frases devido à absurda quantidade de cortes feitos pelos senadores. Leila e as demais senadoras também são alvo da incontrolável vontade de falar dos membros da comissão. Ao questionar o ex-secretário de comunicação do governo, Fabio Wajngarten, a parlamentar brasiliense foi interrompida por um senador governista que lhe disse “calma senadora, não fique nervosa”, em atitude de desrespeito e machismo conhecida como manterrupting*.


Entretanto, apesar dos episódios machistas, a Comissão Parlamentar de Inquérito sergue trabalhando. Dezenas de depoimentos já foram colhidos e até mesmo governadores já foram convocados para prestar esclarecimentos, como Ibaneis Rocha do Distrito Federal, alvo de relatórios do Tribunal de Contas da União e do DF, que apontam suspeitas de irregularidades na utilização das verbas enviadas pelo Governo Federal para combate à panemia. Sobre o tema, Leila cobra transparência do gestor da capital: "É inadmissível negar à população o direito de saber como está sendo utilizado o alto valor que ela paga por meio de impostos", afirma.


A senadora conversou sobre esses e outros temas em uma entrevista concedida ao PSB-DF. Leia a íntegra da conversa abaixo:


PSB-DF - Senadora, qual sua avaliação destes primeiros 60 dias da CPI da Pandemia no Senado?


Leila Barros - Mesmo sem ter concluído ainda os seus trabalhos, a CPI já promoveu uma importante mudança de postura no combate à pandemia: o governo federal foi obrigado a apostar na vacinação como porta de saída para a crise sanitária. Até então, a aposta do governo era na imunidade de rebanho e na utilização de medicamentos ineficazes, seguindo recomendação de um gabinete de aconselhamento paralelo ao presidente da República. Outro inegável avanço é que hoje temos um médico como ministro da Saúde, e não mais um general que se tornou conhecido por sua frase “É simples assim: um manda e o outro obedece”, dita quando o presidente da República mandou cancelar o protocolo de intenções para a compra de 46 milhões de doses da vacina CoronaVac. Por outro lado, mesmo com muitos convocados terem comparecido às oitivas com o claro objetivo de mentir e falsear a verdade para blindar o presidente da República, a comissão está cumprindo bem o seu objetivo principal de retirar das sombras os motivos que levaram tantos brasileiros à morte pela Covid-19.



PSB-DF - Em suas redes sociais pudemos ver que está atenta à gestão da pandemia no DF tendo, inclusive, questionado algumas ações do GDF, como quando Ibaneis voltou atrás e não abriu os leitos de UTI prometidos nos novos hospitais de campanha. Acha que a convocação do governador Ibaneis Rocha para depor na CPI indica que o governo tem mais a explicar para a população?


Leila – O Governo do Distrito Federal não tem primado pela transparência. Ele tem, inclusive, ignorado de forma sistemática pedidos de informações feitos por integrantes da bancada federal. Da mesma forma, tem trabalhado para barrar qualquer tentativa de investigação sobre os atos do governo, principalmente na área da saúde. Um exemplo foi a instalação da CPI na CLDF. Porém, a gravidade dos indícios de irregularidades que envolvem a Secretaria de Saúde do DF exige respostas. A CPI da Pandemia vai colaborar para esclarecer sobre as denúncias de corrupção e de mau uso do dinheiro público no combate à pandemia. É inadmissível negar à população o direito de saber como está sendo utilizado o alto valor que ela paga por meio de impostos.



PSB-DF - Em sua opinião, até o momento, qual a missão principal da CPI? O que ela busca trazer de resposta para os brasileiros?


Leila - A principal resposta que a CPI deve dar à sociedade é como e por que atingimos um número tão alto de mortes. As centenas de milhares de famílias enlutadas merecem e têm direito a ver este questionamento ser esclarecido. As sessões têm comprovado que muitos erros e omissões contribuíram para agravar a pandemia no país. As oitivas e os documentos já recebidos deixam claros o descaso com que foi tratada a questão da compra de vacinas e que foi utilizado um gabinete paralelo no aconselhamento para a utilização de medicamentos comprovadamente ineficazes e na defesa da imunidade de rebanho. Mostraram ainda que o Ministério da Saúde não tem autonomia para se pautar no que a ciência recomenda. Os ministros que não aceitaram ser tutelados pelo Palácio do Planalto deixaram o cargo. Temos que jogar luz e retirar das sombras os motivos que levaram essa pandemia a ter se transformado em uma tragédia sem similar na história nacional. Por que foram cometidos tantos erros e houve tanta omissão? Quem se responsabiliza pela adoção de práticas negacionistas que amplificaram as mortes e atrasaram a vacinação da população? A CPI também está aprofundando a investigação sobre os motivos que levaram o Palácio do Planalto a se guiar por informações de um “gabinete paralelo”, ao invés de se pautar pelo Ministério da Saúde, organismos internacionais e estudos sérios divulgados em publicações com credibilidade reconhecida. Também irá avançar para identificar os responsáveis pelo mau uso dos recursos federais enviados a estados e municípios.



PSB-DF - Desde o primeiro dia em que a CPI foi instalada no Senado já ocorreram diversos casos de machismo durante os trabalhos da comissão. Ao longo das semanas, esse comportamento tem se repetido, inclusive a senhora tendo sido alvo deste machismo. É de conhecimento público que esses casos não são isolados e que o machismo é uma constante no Congresso Nacional. Qual sua opinião sobre isso e como acredita que essa realidade possa ser mudada?


Leila – O machismo não é exceção na nossa sociedade, lamentavelmente. Ele é estrutural e cultural. Mesmo sendo maioria na população, nossa participação na política é ínfima. Até quando ocupamos a mesma função e fazemos o mesmo tipo de trabalho, nossa remuneração é menor. Somos alvo da violência doméstica. O Congresso Nacional é um reflexo atenuado da triste realidade brasileira. Na CPI, alguns homens tentaram calar a nossa voz. Não conseguiram, nem vão. Somos apenas 12 senadoras, entre os 81 integrantes da Casa. Mas estamos dispostas a exigir o nosso espaço e que nos respeitem.


O comportamento machista passa muito por ignorância e falta de educação. Dessa forma, é justamente investindo na educação de nossos jovens que construiremos uma sociedade mais justa e igualitária. Confio e acredito que o futuro oferecerá dias melhores para as mulheres.



PSB-DF - Uma mensagem da senadora sobre a CPI e a situação atual do país.


Leila – Confio que a CPI da Pandemia vai cumprir com dignidade e responsabilidade o seu papel. Lamentavelmente, vivemos tempos de polarização exacerbada. Parece que a cultura do “nós contra eles” se enraizou no país. Adversários políticos passaram a ser tratados como inimigos. O objetivo não é mais o de derrotar nas urnas o seu opositor, mas destruí-lo. Foi abolido o direito de pensar de forma diferente. Se você discorda da opinião de um terceiro, é agredida ou se transforma em vítima de uma tentativa de cancelamento. Tem faltado empatia, compreensão e respeito. Nossa sociedade parece estar doente. Somente unido o Brasil poderá construir alternativas sólidas para resolver graves problemas como a defasagem educacional, o desemprego em alta e o crescimento da miséria.



*O termo junta as palavras man (homem) e interrupting (interrupção). Basicamente, diz respeito a homens que interrompem as mulheres em reuniões, impedindo-as de terminar a frase ou concluir um pensamento.

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