Derretimento de Bolsonaro e hegemonismo do PT

O derretimento político que Bolsonaro vem sofrendo nos últimos meses é o maior em intensidade e em profundidade no seu governo. Nem mesmo no auge da pandemia Bolsonaro esteve tão fraco. Mesmo que do ponto de vista eleitoral esse derretimento ainda não tenha repercutido, certamente terá reflexos na campanha.


Existem vários elementos que conformam este derretimento. Ficou evidente, até para setores da elite, que Bolsonaro não governa e que nunca governou. Apenas destruiu. Assim como ficou evidente que Paulo Guedes não entregou nada. Tal como o chefe, é um especialista em bravatas. Os militares que acreditavam no projeto urdido por Vilas Boas e outros generais, de que através de Bolsonaro seria possível estabelecer uma influência direta e prolongada das Forças Armadas na política, se mostrou um desatino. Só sobraram no governo os militares oportunistas. Outros querem embarcar na canoa de Sergio Moro. Mas a maioria parece estar conformada a aquilo que o general Pujol sempre defendeu: lugar dos militares não é na política.


O “e daí” de Bolsonaro virou um “não estou nem aí” para qualquer coisa, para o sofrimento e a desgraça do povo, para a fome e o desemprego. Até os evangélicos sentiram um açoite no coração pelo descaso do presidente. Enquanto a Bahia se afundava na tragédia das águas, o alegre Bolsonaro passeava, dançava a dança grotesca e se entupia com camarões. O seu negacionismo antivacina chegou ao cúmulo de querer negar a vacina para as crianças.


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O governo Bolsonaro acabou sem festa. As rédeas estão nas mãos de Arthur Lira e ao centrão. Não há mais nada a oferecer. Bolsonaro não terá o que mostrar, não terá um legado a defender. A inflação já comeu boa parte do Auxílio Brasil. O crescimento econômico será pífio. Só sobraram bravatas, desatinos, destruição, ódio e mentiras. Bolsonaro só irá para o segundo turno se os seus opositores forem muito incompetentes.


Neste ponto é preciso chamar a atenção para o vendaval de análises equivocadas sobre o cenário eleitoral. Analistas de esquerda e da grande mídia dão como estabelecido que o segundo turno será entre Bolsonaro e Lula. Alguns chegam a dizer que será um plebiscito sobre Bolsonaro. Isto só ocorrerá se ele for para o segundo turno.


As eleições de 2022 serão policêntricas. Ou melhor dizendo: terão um caráter unimultipolar, para usar um termo de Samuel Huntington. Isto é, terão um polo predominante em Lula a mais alguns polos significativos em Bolsonaro, Dória, Moro e possivelmente Ciro Gomes. Não se pode tomar o que as pesquisas dizem hoje como se fosse a realidade da campanha. Hoje o eleitor só vê dois candidatos: Lula e Bolsonaro. Na campanha verá os outros e aí as pesquisas sofrerão movimentos.


Bastou que as pesquisas mostrassem que Lula teria, hoje, chance de vencer no primeiro turno para que manifestações de arrogância se expressem através de alguns dirigentes do PT. A impressão que passam é que já venceram as eleições. Começam a desprezar aliados, a dizer que vão fazer e desfazer, mandar e desmandar e assim por diante. Isto não é bom para Lula, que é o líder do diálogo.


Trata-se de uma atitude que pode ser denominada de hegemonismo. Este verbete não tem ainda um assento estabelecido na teoria política. Mas ele pode ser compreendido como algo diferente de hegemonia. A hegemonia é um tipo de exercício de direção política e de liderança no qual o poder hegemônico atende a interesses tanto dos aliados, quanto dos liderados, dos governados. No exercício da hegemonia há um compartilhamento do poder, de objetivos e de finalidades. No hegemonismo o poder é impositivo, sem compartilhamento. O hegemonismo é assimilado ao domínio mandonista, num jogo tipo “ou você obedece e me segue ou está fora”. A recente hostilização que militantes petistas promoveram contra escritor Fernando Morais é expressão de mentalidade hegemonista.


O hegemonismo, por ser um poder arrogante, suscita sempre despeito, quando não ódio e sentimentos de vingança. Ele pode ser definido como uma prática de exercício de poder pela imposição da supremacia. O hegemonismo quer que os grupos subalternos o sigam, não pela legitimidade de suas postulações e práticas, mas pela evidência de sua superioridade. O hegemonismo torna-se um poder cego, focado apenas nos seus interesses e termina caminhando para o isolacionismo. O hegemonismo é coativo. A hegemonia é persuasiva.


No governo Dilma havia muito de hegemonismo. O governo e o PT foram se isolando, tanto de aliados, quanto das massas populares. Prova disso é que alguns dos ministros do governo retomaram seus assentos no Congresso para votar em favor do impeachment. Nas ruas, não houve sustentação suficientemente capaz de derrotar o golpe.


A hegemonia não é uma mera negociação de cargos e distribuição de postos administrativos. De acordo com Gramsci, ela precisa ser política, intelectual e moral. O poder hegemônico precisa ter a legitimidade moral para dirigir. Como ocorre isto?

Antes de tudo, o contexto de hegemonia se instala quando existe uma desigualdade de poder. Para que o poder mais forte ou o mais capacitado exerça a hegemonia, ele deve ser capaz de articular em torno de si os outros poderes ou os outros interesses. Ele precisa, de certa forma, dissolver as sua particularidade numa universalidade que abarque os outros interesses as outras visões de mundo, dissolvendo também aquelas particularidades num projeto superior.


Isto só é possível de ser feito se o arranjo hegemônico ou, no caso, a coalizão, conformar, alocar e abrigar os interesses de cada grupo ou partido tendo por base um programa e os fins éticos que ele expressa. Se a construção do arranjo hegemônico começar pela distribuição de candidaturas ou negociação de cargos, mais cedo ou mais tarde caminhará para crises e fracasso. É o velho vício da política brasileira.


A hegemonia se exerce pela capacidade de aglutinação, de sistematização e de coordenação dos interesses e dos propósitos públicos que os grupos políticos se propõem representar. A hegemonia não pode ser pensada como uma coisa secreta dos partidos, mas como a expressão da representação pública de grupos sociais e interesses que eles dizem representar.


As negociações envolvendo o PT, o PSB, Alckmin e outros partidos não tiveram um bom começo. Os operadores dessas negociações precisariam vir a público e justifica-las em termos de objetivos e finalidades que fundamentem acordos. No final do processo de negociações deveriam apresentar um documento público que explicite as razões e os pontos programáticos da coalizão. A representação política tem uma natureza eminentemente pública. Os partidos e os líderes não têm o direito de privatizar a atividade e os acordos políticos e tornando-os secretos.


Aldo Fornazieri, Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

Artigo publicado originalmente no site Brasil 247

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