Crise de representatividade entre caminhoneiros prejudica mobilização do setor


Imagem: Reprodução

Por Tainã Gomes de Matos, Socialismo Criativo


Uma possível paralisação nacional dos caminhoneiros ronda o Brasil há meses. A lembrança do último protesto, ocorrido em 2018, ainda está viva na memória dos brasileiros que sentiram a potência do setor para a economia.


Naquele ano, a mobilização paralisou o transporte de cargas em 24 estados brasileiros, além do Distrito Federal, o que foi suficiente para reduzir a expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,5% para 1,6% naquele ano, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV).


Foram necessárias intervenções das Forças Armadas e das polícias rodoviárias estaduais e Federal para pôr fim ao movimento, que durou duas semanas.

Tentativa de nova paralisação

Lideranças do setor chegaram a anunciar uma nova paralisação no último domingo (25). A principal reivindicação da classe foi a estabilização do preço dos combustíveis. No entanto, a mobilização não ganhou força tendo destaque apenas em pontos isolados. Não houve bloqueio das estradas.


Especialistas apontam a chegada de Jair Bolsonaro ao poder como um dos principais motivos para que as greves tenham perdido força entre os caminhoneiros, que ainda demonstram certo tipo de apoio ao governo.

Os caminhoneiros e o bolsonarismo

Na avaliação da historiadora, doutora em História Social e professora de História Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Larissa Jacheta, é difícil prever se haverá uma nova greve.

“Os caminhoneiros são uma categoria de trabalhadores que não opera como as outras. Eles não são organizados e sindicalizados, então não há assembleias, não há lideranças específicas, não há reuniões”. Larissa Jacheta

Larissa Jacheta acredita que a desorganização da classe se dá pela predominância de um discurso antissindical, que rotula as organizações de trabalhadores e de esquerda como “pelegos, corruptos e encostados”.


A especialista reconhece que o apoio da categoria a Bolsonaro age como um freio a novas mobilizações, mas prefere não rotular os quase 2 milhões de trabalhadores do transporte como “fascistas”.


“Muitos deles ainda acreditam nesse projeto do Bolsonaro, ainda que seja um projeto mentiroso, uma falcatrua completa”, avalia Larissa.

Perspectivas acima da questão ideológica

A historiadora acredita que para fazer uma análise mais acertada é preciso focar no poder de travar a circulação de mercadorias, em um país onde quase 70% dos bens são transportados por rodovias e não no discurso utilizado por algumas categorias de caminhoneiros.

“Em 2018, eu acho que o campo progressista perdeu uma oportunidade muito grande. Era necessário que outras frentes de trabalhadores se unificassem a essa greve dos caminheiros, porque eles causam impacto material muito mais do que ideológico na sociedade” Larissa Jacheta

Apesar das demonstrações de força em 2018, os caminhoneiros ainda enfrentam os mesmos problemas: valor do frete defasado, oscilação do preço dos combustíveis e jornadas de trabalho estafantes.


Em 2018, o então presidente Michel Temer, tentou emplacar uma tabela de fretes para apaziguar os ânimos dos grevistas, mas não funcionou.


“O preço mínimo dos fretes está sempre muito defasado, não acompanha adequadamente a inflação, o custo de vida, a alta dos preços. Então, isso causa uma perda em termos de ganho real, porque eles têm uma elevação do custo de produção muito grande”, explica.

A especialista acredita que outra mobilização grandiosa só acontecerá quando a classe se der conta de que as questões que envolvem a temática estão acima dessa opção ideológica que fizeram.

“Sem politicagem”

O Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas (CNTRC), criado em novembro de 2020, foi o responsável pela mobilização do último domingo (25). O diretor-presidente da entidade, Plínio Dias, afirma que a entidade representa os caminhoneiros “sem politicagem”.

A entidade já foi recebida presencialmente pelo ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, e em junho pelo presidente da Petrobrás, general Joaquim Silva e Luna. ambos representam o alto escalão do governo bolsonarista.

“Nós não estamos reivindicando nem ‘fora, Bolsonaro’, nem ‘Lula Livre’, como o pessoal está falando por aí. Nós não temos bandeira partidária, e sim a sobrevivência do setor de transporte do qual a gente faz parte. Somente isso, mais nada” Plínio Dias

No entanto, Dias reconhece que a proliferação de entidades representativas dificulta a organização de uma greve nacional, mas critica as organizações maiores e mais consolidadas por não corresponderem aos anseios das bases.


“Os caminhoneiros já estão cansados de esperar pela maioria das entidades responsáveis que se dizem lideranças de caminhoneiro. Então nós tomamos essa atitude. Estamos aí com poucas entidades [mobilizadas]. Tem uns três ou quatro sindicatos lutando pelo caminhoneiro autônomo. E o movimento está crescendo a cada dia”, avalia.


De acordo com o diretor, a mobilização em curso chegou a atingir 15 estados brasileiros. Com adesão reduzida, a opção da maioria foi por não obstruir as rodovias.


“A paralisação é pacífica. A reivindicação é a sobrevivência do setor de transportes e contra os aumentos abusivos da Petrobras do gás de cozinha, gasolina e principalmente diesel, que faz nossos caminhões rodarem”.


Leia também: Petrobras: preço da gasolina, diesel e gás de cozinha aumentam de novo

Preços instáveis

A CNTRC enviou uma carta aberta ao presidente da república publicada no mês de sua fundação. O documento apontou a Política de Preço de Paridade de Importação (PPI) como a principal responsável pelas mazelas vividas pela categoria.


Segundo Plínio, na prática, a PPI vincula os preços praticados no Brasil à cotação internacional do petróleo e ao dólar, provocando altas sucessivas dos combustíveis e do gás de cozinha, inviabilizando o planejamento de caminhoneiros autônomos, que muitas vezes acumulam prejuízo.


Considerada por especialistas como principal vilã não só dos condutores, mas de toda a economia nacional, a política de preços foi implementada por Pedro Parente, presidente da Petrobrás na gestão de Michel Temer.


O preço do diesel foi o principal argumento utilizado na mobilização de 2018 e.atualmente, está 15% mais caro hoje do que na primeira semana de maio, às vésperas da paralisação nacional. Segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), os valores médios saltaram de R$ 3,94 para 4,54.


“No caso de 2018, por exemplo, bem como agora, a maioria dos caminhoneiros – como a maioria da população brasileira – comprou um discurso enganoso de que as altas nos preços dos combustíveis e do gás de cozinha são um problema de impostos. E não são”, explica Larissa Jacheta.

Crise de representatividade entre caminhoneiros

Acompanhando de perto o setor de transporte de cargas há 15 anos, o jornalista Almir Francisco, conhecido como Chico da Boleia, é apoiador da luta dos caminhoneiros, mas afirma que a convocação de greves que “morrem na praia” desgastam o movimento sem garantir conquistas trabalhistas.


“Não é simplesmente soltar uma convocação via WhatsApp e pronto. Certas pessoas sem a menor responsabilidade com setor ficam soltando chamamento de greve sem ter a liderança para isso, e colocando a ferramenta de luta e legítima que é a greve em descrédito”.


Para Chico da Boleia, a proliferação de sindicatos de condutores gera uma crise de representatividade no setor. E lembra: “devidamente organizada, a categoria derruba presidente, como ocorreu no Chile em 1972. Os carreteiros chilenos pararam por 26 dias, dando início a uma série de manifestações pelo país que culminaram com o golpe de Estado”, afirma, referindo-se à deposição do presidente Salvador Allende.


Com informações do Brasil de Fato

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