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Crime e preconceito: nem a ABL escapa da homofobia


Imagem: Socialismo Criativo

Via, Socialismo Criativo


A tão culta e refinada Academia Brasileira de Letras (ABL) está envolvida em um escândalo de homofobia e assédio sexual. Segundo a reportagem da revista Veja, publicada na segunda-feira (13), o escritor e ex-secretário de Educação paulista Gabriel Chalita foi acusado de homofobia e assédio sexual pelo editor Pedro Corrêa do Lago, que faz campanha para seu pupilo, o filósofo Eduardo Giannetti, para ocupar a cadeira de número 2, antes ocupada pelo filósofo Tarcísio Padilha até 9 de setembro deste ano, quando faleceu. A cadeira disputada por Chalita e Giannetti tem como patrono o poeta ultrarromântico Álvares de Azevedo (1831-1852), autor da Lira dos Vinte Anos.

De acordo com a matéria, Corrêa do Lago teria ligado para pelo menos oito imortais da ABL atacando com acusações graves e discurso homofóbico o oponente de seu preferido. O editor teria dito que Chalita assediou sexualmente e moralmente um sobrinho dele há quase 20 anos, conforme um dos membros da ABL que se identificou para a publicação semanal, Carlos Nejar, que embora afirme não ter recebido o telefonema, confirmou as ligações com outros colegas do suntuoso edifício do centro histórico do Rio de Janeiro.

“Eu fiquei indignado com essa maldade que o Pedro fez. É a primeira vez que eu vejo uma campanha tão suja como essa. Ele não seria louco de me ligar, sabe que comigo iria ouvir poucas e boas se viesse com essa maldade. Ele fez comentário homofóbicos, o que é um crime. Não admito que se faça isso.” Carlos Nejar

Outros imortais da ABL, exigindo anonimato, disseram que a atitude de Corrêa do Lago teria sido típica de quem perdeu a noção do que pode e do não se pode fazer numa eleição desse tipo. Houve também quem se indignasse pelas acusações levantadas, que evidentemente não teriam como ser comprovadas, o que pode ser interpretado como uma estratégia que visariam apenas a “queimar” Chalita, já que assédio sexual é crime.

O fato é que o clima se deteriorou muito no Palácio Petit Trianon depois do pesado acontecimento e não se sabe exatamente, agora, qual será o placar da próxima quinta-feira (16) quando Giannetti e Chalita receberão votos de seus imortais simpatizantes.

“Lição aos homofóbicos”

Imortal da Academia Brasileira de Letras, o escritor e jornalista Zuenir Ventura, tem um texto no site da ABL, publicado no jornal O Globo, no dia 05 de outubro de 2021, entitulado “Lição aos homofóbicos”, onde critica o presidente Jair Bolsonaro e adeptos do seu governo por essa posição criminosa contrária a comunidade LGBTQIAP+.

Ventura começa lembrando que o Brasil é campeão em assassinatos de homossexuais e que Bolsonaro se sente muito a vontade em declarar que tem ‘imunidade para afirmar que é homofóbico, sim, com muito orgulho’. Mais a frente, relembra o caso de Fabiano Contarato, o primeiro senador da República assumidamente gay, que confrontou o obscurantismo de um empresário homofóbico e, claro, bolsonarista, Otávio Fakhoury, apontado por membros da comissão como um dos principais financiadores de uma rede de disseminação de mentiras de apoio a atos antidemocráticos durante a pandemia.

No artigo, Ventura narra que Contarato disse em tom de desafio ao empresário que o ofendera com deboches grosseiros nas redes sociais:

– A mesma certidão de casamento que o senhor tem, eu também tenho. Tenho minha vida modesta com orgulho, cuidando da minha família, meu esposo, meus dois filhos (. . . ). Orientação sexual não define o caráter, cor da pele não define o caráter, poder aquisitivo não define o caráter. Contarato acrescentou que não era fácil se expor e a sua família e disse que Fakhoury devia desculpas a toda a comunidade LGBTQIA+.

Agora, a mesma cena se repete dentro da ABL. Zuenir Ventura ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Dados da violência contra comunidade LGBTQIAP+

Em 2020, a Rede Trans lançou o dossiê “Transfobia: a Pandemia que o Brasil ainda não Extinguiu e o Isolamento Social que Conhecemos”, com números de assassinatos, suicídios além das mortes brutais de pessoas trans. Com base nesse histórico, comparando os dados consolidados dos anos anteriores mais os números de 2020, temos o lamentável painel de mortes de pessoas trans no Brasil.

A cada 48 horas uma pessoa transexual é assassinada no Brasil. Pelo 12º ano consecutivo, o país é o que mais mata LGBTQIA+ no mundo.

Um dos grupos mais vulneráveis da comunidade LGBTQIAP+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, queers, intersexuais, assesexuais, panssexuais e outros) são os transexuais. Apenas em 2020, 175 pessoas trans foram assassinadas no Brasil.

As violências contra a população trans são foco da atuação da Rede Trans Brasil desde a fundação, em 2009. Presidida pela secretária do segmento LGBT Socialista, Tathiane Araújo, a partir de 2016 a entidade passou a catalogar e monitorar assassinatos e violações de direitos humanos de pessoas trans no Brasil.

“Nos últimos cinco anos foram levantados 785 (setecentos e oitenta e cinco) casos de mortes de pessoas trans no Brasil, por diversas motivações. São números alarmantes, se considerarmos a sua população. Cada pessoa trans que veio a óbito, independente da causa da morte, teve, em sua grande maioria, um histórico de incompreensões durante toda a vida.” Dossiê Rede Trans Brasil

Outra entidade que também monitora os dados sobre violência contra pessoas trans é a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) mostra aumento em quase um terço, de 29%, em relação às 124 mortes de transexuais registradas em 2019. O que faz de 2020 o segundo mais violento da década para pessoas trans, atrás apenas de 2017, quando ocorreram 179 assassinatos.

Leia também: Subnotificação de crimes contra LGBTQIAP+ preocupa direitos humanos

Em números absolutos, São Paulo foi o estado com mais casos em 2020, com 29 mortes, seguido pelo Ceará, com 22 assassinatos, e a Bahia, com 19. Os três estados foram também os que apresentam o maior número de mortes nos últimos quatro anos (de 2017 a 2020). Nesse período, foram registrados 641 assassinatos de transexuais, sendo 80 em São Paulo, 62 no Ceará e 59 na Bahia.

LGBT Socialista atua por políticas públicas

A secretária do segmento LGBT Socialista, Tathiane Araújo, destaca a importância de políticas públicas em prol da população LGBTQIA+.

”Hoje, o foco desta população é combater o conservadorismo propagador de absurdos como curar ou de alguma forma tratar homossexualidade ,e outras perseguições históricas à população LGBTQIA+.” Tathiane Araújo

A dirigente do LGBT Socialista avalia que o Brasil está longe de ser um lugar seguro para essa comunidade e que o país continua sendo um celeiro de exclusão social.

”Com o legislativo amarrado aos conservadores e a gestão pública se colocando contra a liberdade de orientação sexual e identidade de gênero da nossa população, esse país continuará sendo visto como um país retrógrado nos direitos humanos e um país violento que não respeita cidadania das pessoas LGBT.” Tathiane Araújo
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