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“A conversa não tem dono”


Não há equívoco ou desvio identitário quando, no mês da consciência negra, se reforçam as palavras de ordem em torno do tema “vidas negras importam”, espalhadas pelo mundo a partir das lutas da população afrodescendente dos Estados Unidos da América.

É claro que todas as vidas importam, mas a conclamação não diz que as vidas negras importam mais do que as outras. A frase diz, no entanto, alto e bom som, que elas não podem valer menos. E aí não há como tergiversar. As estatísticas, sejam as norte-americanas ou as nossas tupiniquins, clamam por alterações profundas nas nossas estruturas sociais que refletem ainda a mal resolvida “abolição da escravatura” que deixou rastros indeléveis não só na economia doméstica dos afrodescendentes, mas na própria formação econômica nacional e no execrável racismo que ainda perdura firme e forte em nosso país, muitas vezes disfarçado.

Coube sim historicamente aos agrupamentos políticos de esquerda a luta contra a exploração do homem pelo homem, ensejada na ânsia de acúmulo infinito do capital. Essa luta resultou em transformações muito importantes na vida dos países no século XX, sejam os que experimentaram mudanças radicais em suas infraestruturas sociais, jurídicas, econômicas e políticas, apesar da derrotada experiência do chamado “socialismo real” ou mesmo dos países denominados capitalistas.

O aspecto que se quer destacar aqui é que as bandeiras defendidas pelos socialistas as foram independentemente da condição de vida de quem as defendeu. Um homem branco da classe média não só pode, como deve se somar à luta contra a exploração do trabalho alheio, mesmo não sendo ele o explorado. O mesmo vale nas lutas feministas que não são só das mulheres, nas lutas inclusivas que não são só das pessoas com deficiência e também na luta dos negros e negras. No dizer do rapper Emicida: “a conversa não tem dono”.

Por isso defendemos as cotas para negros nas universidades e outras políticas afirmativas. Diferentemente dos europeus, por exemplo, que migraram para o Brasil por vontade própria e foram beneficiados por várias políticas afirmativas, o povo africano veio para cá contra a sua vontade e em condições que permitem afirmar sem dúvida que o Estado brasileiro tem uma dívida enorme com essa população, a despeito de sua grande contribuição na formação econômica, social e cultural do Brasil.

Dessa forma, homenagear o povo negro no mês da consciência negra e no dia em que se observa com condolências o assassinato de Zumbi dos Palmares, vai muito além de reforçar pautas identitárias, trata-se de homenagear a existência humana em todas as formas em que ela se expressa. Essa saudação, a façamos irmanados: mulheres e homens, pessoas com ou sem deficiência, jovens ou não, pretos ou brancos. Só dessa forma, quem sabe, poderemos ver superado definitivamente o racismo estrutural e mal disfarçado que infelicita e infecta nosso país.


Paulo Bracarense é professor aposentado da UFPR, membro  da Comissão de Sistematização da Autorreforma e do Diretório Nacional do PSB, coordenador da Fundação João Mangabeira no Paraná e Diretor Cultural da Associação dos Professores da UFPR – Seção Sindical do ANDES. É autor do livro “Paraná Negro” sobre as comunidades remanescentes de Quilombos no Paraná. 
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