A burguesia é antidemocrática e antipopular, diz Jones Manoel


(Imagem: Reprodução/Socialismo Criativo)

Por Ana Paula Siqueira, Socialismo Criativo


A burguesia brasileira foi e continua a ser antidemocrática e antipopular. Sempre agiu de acordo com seus interesses e nunca teve um plano de desenvolvimento, muito menos que contemplasse a sociedade. É o que afirma Jones Manoel, historiador, youtuber e marxista. Ele é o novo colunista do Socialismo Criativo e foi o convidado da 10º live sobre a “Revolução Brasileira no Século 21”, que debateu “A importância da teoria”, nesta quarta-feira (9).


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A Revolução Brasileira na visão de Caio Prado Junior

Jones Manoel avalia que o livro “A Revolução Brasileira”, de Caio Prado Junior, merece sempre ser revisitado e debatido. Porém, ele afirma ter discordâncias fundamentais com o pensador.

“Na hora de pensar o sujeito revolucionário do Brasil, Caio Prado Junior dá pouquíssima atenção ao proletariado urbano e ao subproletariado urbano das favelas. Ele pensa pouco a dimensão do assalariamento urbano nos grandes centros do Brasil, embora, naquele momento a concentração populacional dos grandes centros urbanos fosse, evidentemente, menor do que é hoje, já tinha um destaque muito grande. E essa concentração populacional e essa concentração populacional totalmente marcada pela questão racial. E o Caio Prado Junior não consegue ver isso.” Jones Manoel

O militante considera que o pensador, que publicou o livro em questão em 1966, foi muito ousado ao responder duas questões centrais na compreensão de revolução: qual o caráter e o sentido da revolução, e quem é o sujeito da revolução. Mas observa pontos sensíveis na obra.


A série de debates é promovida pelo Instituto Pensar, o Socialismo Criativo e o Partido Socialista Brasileiro (PSB). Participaram do evento o membro do Diretório Nacional do PSB, Domingos Leonelli; e a integrante da direção da Juventude Socialista Brasileira (JSB), Juliene Silva. A mediação foi feita por James Lewis.

Assalariados urbanos e rurais

“Os comentários no livro sobre os assalariados urbanos são muito fracos. Sobre a questão racial, além de serem fracos, são ruins. Tem um trecho que ele fala que os trabalhadores do Sul do Brasil têm um nível maior culturalmente porque são descendentes de europeus. Tem vários problemas colocados ali”, destaca.


Manoel critica também o posicionamento de Caio Prado Junior sobre a reforma agrária, que não via o peso da questão da terra no país como seu próprio partido, o PCB (Partido Comunista Brasileiro).

“A história desmentiu Caio Prado Junior porque, na luta camponesa do Brasil as duas maiores organizações, as Ligas Camponesas e o MST (Movimento Sem Terra), embora tenham um proletariado agrícola e reivindicações na área dos direitos trabalhistas, têm como centro a luta pela terra.” Jones Manoel

Contextualização do pensamento político

O presidente do PSB, Carlos Siqueira, reconhece a importância das críticas, mas alerta para a necessidade de contextualização da obra de Caio Prado Junior. “O homem em seu tempo”, pondera.


Siqueira avalia que, se tivesse partido da teoria certa, a revolução poderia ter sido mais duradoura quando a esquerda esteve no poder – antes da ditadura militar e na atualidade. Ele reconhece, por exemplo, a ausência da questão racial na obra de Caio Prado Junior, porém, credita ao fato de não haver à época o tratamento devido sobre o tema como ocorre hoje.


“O esforço de Caio Prado Junior deve nos inspirar, hoje, a fazer uma leitura da nossa realidade de tal modo que nos ajude a formular uma teoria que possa sustentar a transformação da sociedade brasileira, naturalmente, processual. E, no caso do PSB, tem uma opção democrática clara pela liberdade, diferentemente do que acontecia nas revoluções, inclusive do Partido Comunista”. Carlos Siqueira

Jones Manoel observa que, apesar das discordâncias, existem muitos pontos de concordância com os socialistas. “Embora a situação do país esteja horrível, do ponto de vista de renovação das esquerdas, acho que vem avançando. Eu, inclusive, sou fruto dessa nova geração”, pondera. Mas rebateu Siqueira ao reafirmar que à época da Caio Prado Junior o debate sobre a questão racial já estava posto.

Trabalhar para preencher as lacunas

Para Juliene Silva, que já havia levantado a questão da negritude dentro da obra de Caio Prado Junior em outras ocasiões, essa contradição pode ser superada ao se trabalhar a condição processual com o compromisso de trabalhar o que não formulado pelo pensador.


“Mesmo com todas essas críticas, a gente também consegue trabalhar essa processualidade para ela ser a retomada das nossas construções políticas com o compromisso de sermos os reformuladores das temáticas que ele não conseguiu formular”, comentou Juliene.

E cita o ditado iorubá utilizado pelo músico Emicida no documentário AmarElo – É tudo pra ontem.

“Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje. Tem toda uma conotação religiosa, mas ela também leva a um pensamento de estruturação de processos. Para que se possa alcançar um objetivo é preciso uma estruturação, uma continuidade. Dentro do nosso contexto socialista, é necessário ter uma teoria revolucionária que conduza esses processos.” Juliene Silva

Classe dominante é violenta

Ao citar episódios de culminaram em violência, e que continuam rotineiramente nos dias atuais, como o massacre na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, Jones Manoel afirma a posição violenta característica de quem detém o poder.


“Historicamente, a classe trabalhadora não tem nada contra a democracia. Quem tem muita coisa contra é a burguesia. Note por exemplo, na conjuntura brasileira, que a polícia mata 28 pessoas no Jacarezinho. Quem está contra (o massacre), somos nós, a sociedade. Veja se a CNI (Confederação Nacional da Indústria) soltou alguma nota.” Jones Manoel

E afirma: “a burguesia brasileira não tem projeto nacional, popular, democrático”. E aponta para a construção histórica da consciência de classe antipopular. Afinal, a narrativa dominante é sempre a do lado vencedor. Diante da constatação é enfático.


“A burguesia brasileira e latino-americana é antipopular, antidemocrática e antinacional.” Jones Manoel

O presidente do PSB avalia que as discordâncias com Jones Manoel são muito mais teóricas do que práticas. No mesmo sentido do historiador, critica a classe dominante do país. “A elite brasileira não merece esse nome. Só tem projetos para ela própria. As grandes conquistas sociais aqui e em todo o mundo aconteceram graças as forças progressistas”, afirma.

Sentido perdido da revolução

Para Leonelli, autor do livro “O sentido perdido da revolução”, Caio Prado Junior cometeu mais um erro de avaliação política do que estratégica.

“Deveria se dar mais atenção aos assalariados agrícolas. A luta pela terra nunca foi questão central no processo revolucionário brasileiro.” Domingos Leonelli

E observa que isso foi perdido quando a esquerda esteve no governo durante as gestões petistas. “Esse sentido da revolução, da transformação, como planejamento estratégico, acho que isso é que foi perdido nos nossos governos de esquerda que foram liderados pelo PT, que se recusa a ver qualquer erro”, critica Leonelli.

E 2022, Jones Manoel?

“A gente vive hoje um governo com sete mil militares que participaram ativamente na ascensão desse governo de extrema direita, inclusive, com o famoso tweet do general Villas Boas ameaçando o STF pro Lula não ser solto pra não ganhar do Bolsonaro. E, que ele confessou com toda a desfaçatez do mundo como se fosse um detalhe que o tweet foi decidido pelo alto comando do Exército. Aí ano que vem, se o Bolsonaro perde a eleição e o próximo governo decide mandar os sete mil milicos de volta para o quartel, eles vão sair de bom grado depois de tudo o que fizeram para chegar ao primeiro plano do governo?”, questiona Jones Manoel.

O historiador acusa o envolvimento de empresas privadas pertencentes a membros do alto escalão do Exército. “Com a falência da Odebrecht e Camargo Correia, estão pegando obras tanto no poder público como privado. Está um imbricamento cada vez maior do generalato brasileiro, especialmente, do Exército com o governo brasileiro.” O que reforça ainda mais sua visão de que uma possível saída do poder das forças dominantes será de maneira violenta.


“O que fazer com a classe dominante quando ela quiser dar golpe? E ela vai dar golpe em qualquer processo transformador substancial”, sentencia.

Novo pensamento político

Diante desse quadro, Carlos Siqueira reforça a urgência de um novo pensamento político capaz de fazer frente ao poder dominante no país.

“Requer dos revolucionários contemporâneos um novo pensamento e sobretudo uma nova leitura da realidade brasileira para a gente encontrar rumos para o desenvolvimento estratégico, com inclusão social, das mulheres, dos negros. Que a sociedade possa se abrir para a maioria dos seus habitantes. É preciso se abrir para um novo tipo de partido e de militância e se democratizar verdadeiramente.” Carlos Siqueira

Ciclo de debates sobre a Revolução Brasileira

Já participaram do ciclo de debates a deputada socialista Lídice da Mata (PSB-BA), o governador do Maranhão, Flavio Dino, o ex-presidente da Fundação Palmares e mestre em cultura e sociedade, Zulu Araújo, o deputado constituinte Hermes Zaneti, os economistas Marco Antonio Cavalieri e Luiz Gonzaga Belluzo, o geógrafo Elias Jabbour, o professor José Luiz Borges Horta, o socialista e ex-presidente da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP), Jonas Donizette.

Confira a live na íntegra



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